quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Disco da Semana: A Seat at the Table (Solange, 2016)




   Em “A Seat at the Table (2016)”, Solange reivindica seu espaço, enquanto mulher negra, em uma sociedade que ainda perpetua uma estrutura discriminatória a este grupo. Além de demonstrar o amadurecimento musical da cantora desde o EP “True” –que fazia uma leitura indie da sonoridade pop oitentista ao lado de parceiros como Blood Orange–  o novo álbum representa um ponto de inflexão na carreira de Solange, por seguir a linha de álbuns conceituais que se propõem a contar uma história, com canções que descrevem um processo que associa a jornada pessoal da cantora ao contexto político (de ativismo negro) que tem inspirado uma ótima safra de trabalhos de artistas pop e R&B.
  Estabelecendo um equilíbrio notável entre a memória afetiva e o engajamento, e entre um discurso agressivo e o tom delicado e intimista, Solange descreve o cansaço diante do estado geral das coisas em “Weary”, os esforços em fugir do problema ao adotar uma postura passiva e escapista em “Cranes in the Sky”, até a admissão da necessidade de tomar uma atitude e empenhar-se na luta. Toda a trajetória é pontuada por interlúdios, como “Dad was Mad” que confirma o tom autoral ao apresentar um relato do pai da cantora, mas ao mesmo tempo confere caráter histórico ao discurso para dimensionar o peso da violência e da segregação para a população afro americana. O interlúdio com a narrativa do pai antecipa a ótima “Mad”, que conta com participação de Lil Wayne, e soa como uma apropriação bem humorada do estereótipo da “angry black woman”, do qual a própria Solange já foi alvo devido a um “escândalo” midiático em um elevador saindo do Met Gala 2014. Já “Dont Touch my Hair”, que desde o título alimenta uma leitura de empoderamento negro, ao admitir a relutância aos padrões de beleza e exaltação da cultura afro a partir do cabelo, é precedido pelo interlúdio “Tina Taught Me”, com narrativa que discute a falácia do argumento do racismo reverso.
 Além das figuras materna e paterna, outro personagem surge nos interlúdios como mentor na jornada de Solange em “A Seat at the Table”: o rapper e produtor musical Master P. As ideias do magnata da indústria fonográfica norte americana a respeito da necessidade de construção de um legado cultural controlado por negros e negras e voltado também para eles e elas, dão outra dimensão às letras de “F.U.B.U. (For Us Buy Us)” e servem para rebater um discurso pretensamente pacifista que elimina o tom combativo da militância; além de reconhecer a importância da representatividade na mídia como mecanismo de ascensão e emancipação da povo afro americano.
  A semelhança temática com “Lemonade (2016)”, o mais recente trabalho da irmã Beyoncé, é evidente, mas a autora de “A Seat at the Table” consegue lidar bem com o tão aludido fardo de viver na sombra da maior artista da musica pop atual.  Seja na sofisticação neosoul dos arranjos das músicas, na leveza dos vocais, ou na combinação de despretensão cool com aspiração vanguardista de seus clipes, Solange emula identidade própria e firma o distanciamento com a linguagem mais expansiva e mais pop de Beyoncé.

Destaques: “Weary”; “Cranes in The Sky”; “Dont Touch my Hair”; “F.U.B.U”; “Don’t Wish me Well”.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Unreal (Segunda Temporada, 2016)- Parte 2


  “Unreal” continua investindo em plots twists arriscadíssimos em sua segunda temporada (atualmente exibida no Brasil pela Lifetime), e acertando em todos eles. A possibilidade de um reinado harmônico comandado por Quinn (Constance Zimmer)  e Rachel (Shiri Appleby) caiu por terra já no primeiro episódio e o game of thrones pelo controle da produção de “Everlasting” recomeçou.  Não bastasse o retorno de Chet (Craig Bierko), que não parece ter potencial de desestabilizar Quinn emocionalmente, mas é uma ameaça real às suas ambições profissionais (porque é homem e  afinal das contas é muito mais fácil obter prestígio profissional sendo homem), um novo produtor é contratado pela emissora e cai de paraquedas para assumir os créditos pelo trabalho das duas grandes estrelas por trás do reality e servir de pedra no sapato para o maior relacionamento da série: Quinn e Rachel, óbvio.
  Foi interessante acompanhar toda a discussão racial que o casal Darius (B.J. Britt) e Ruby (Denée Benton) incitou e ver Jay (Jeffrey Bowyer-Chapman) sentindo-se verdadeiramente realizado (e representado) pela primeira vez em “Unreal”. Mas convenhamos que o foco da série nunca foi apresentar trajetórias redentoras e era de se esperar o romantismo dos dois fosse esbarrar nos interesses escusos de Quinn e Rachel. Logo, faz sentido que o relacionamento afetivo priorizado ao longo desta temporada seja o de Rachel com o produtor Coleman.
  Coleman (Michael Rady) é uma versão menos gostosa do Adam (Freddie Stroma) da temporada anterior e cumpre o papel de fazer Rachel se enganar pensando que odeia aquele trabalho e que preferiria viver um romance convencional numa lugar pacato, longe da pressão dos bastidores de Everlasting. Adam, por sua vez, ocupou o posto que num passado longínquo foi de Jeremy (Josh Kelly) que, depois de admitir-se impotente diante de sua ex-namorada, resolveu colocar em prática a teoria de superioridade masculina pregada por Chet e impor sua vontade no único quesito em que ele é capaz de vencer de Rachel: a força física. Em sua defesa, Chet alegou que aquilo era uma má interpretação de seus dogmas, mas...enfim.
  Como os homens de Unreal só importam à medida que eles afetam a dinâmica das duas protagonistas femininas, o envolvimento afetivo de Coleman e o incidente com Jeremy servem para despertar a identificação de Quinn com os dramas de Rachel. No meio da conturbada disputa profissional entre as duas, em que ambas lançam mão de associações com parceiros masculinos, justificadas antes pelo poder que esses homens representam e pelo senso de proteção que inspiram do que por qualquer outra coisa, há espaço para a sessão de  aconselhamento de Quinn, advertindo Rachel que Coleman é um aproveitador (um taker); tal qual Chet. Quase toda a temporada se resume a esta cena e o que se sucede é mera sequência de eventos para preencher episódios.
  Em outra cena que sintetiza a segunda temporada, a consultora psiquiátrica do reality tem seu momento de brilhantismo na série e atesta algum caráter maternal na atenção dada por Quinn a Rachel. A relação traumática de Rachel com sua mãe biológica e a subtrama do romance entre Quinn e John Booth (Ioan Gruffudd) e os questionamentos dela a respeito da possibilidade de construção de uma família ao lado dele, desenrolam-se em “Unreal” a partir daquele diagnóstico. Também em decorrência deste diagnóstico, evoca-se  certa concepção romântica de mito do amor maternal –que definitivamente foge do modus operandi do universo da série– resignificada na série (porque não provém do vínculo biológico), para voltar à proposição básica de que a compreensão mútua entre Quinn e Rachel é algo que nenhuma das duas encontrará em outra relação; seja ela afetiva ou familiar.

Screenshoots: Solange em "Cranes In The Sky"










O clipe de “Don't Touch My Hair” também é maravilhoso.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Unreal (Segunda Temporada, 2016)-Parte 1


 Depois de uma primeira temporada em que o cinismo minava as possibilidades de militância feminista e, longe de representar uma deficiência da série, impunha uma dinâmica intricada entre as duas protagonistas, “Unreal” estreia seu segundo ano escancarando engajamento político. Enquanto a camiseta de Rachel (this is what a feminist looks like) entregava ironia já na cena de apresentação da personagem, a frase da tatuagem escolhida pela dupla para selarem a amizade, após um plot twist de fim de temporada que colocou os homens em segundo plano, não poderia ser mais certeira em captar a nova orientação da série: “Money.Dick.Power”. Ainda existe espaço para dubiedade na relação entre Rachel (Shiri Appleby) e Quinn (Constance Zimmer), que oscila entre a quase completa simbiose da persona das duas e competitividade ferrenha com táticas sofisticadas de manipulação. Mas já no primeiro episódio da segunda temporada se delineia um antagonismo comum que permite a parceria entre as duas.
   O primeiro deles é Chet (Craig Bierko), que já parecia idiota na temporada anterior, mas graças à genialidade das autoras, retorna superando todas as expectativas de ridicularização do homem hétero branco rico. Depois de um retiro espiritual na Patagônia ( !!!!), para se recuperar da dependência de drogas, de um divórcio e de uma puxada de tapete de sua ex-amante Quinn, Chet deixou de lado a vida sedentária e niilista, emagreceu e volta reenergizado, pronto para usar de sua força masculina primitiva a fim de retomar o posto de comando do reality show “Everlasting”. Não por acaso, Chet firma uma aliança com Jeremy: outro macho fragilizado pelo time Rachel/Quinn; que parece menos disposto a passar a temporada chorando suas lamurias do que em ensaiar algum plano de vingança. É difícil acreditar que Jeremy (Josh Kelly) tenha grandes recursos para realizar algo que realmente comprometa a sua ex, e ir além de campanhas  difamatórias a Rachel pelos bastidores do reality show, mas ele é uma mente vazia e, portanto, muito propicia para abarcar as  teorias de macho alfa divulgadas por Chet.
 Outro acerto das autoras Noxon e Shapiro, que comprova o êxito de “Unreal” em retomar uma série mantendo a contundência e apresentando novas perspectivas a serem trabalhadas nos próximos episódios (nenhuma intenção de shade com How to Get Away...), é a questão racial que ganha maior espaço a partir da escolha do novo pretendente de “Everlasting”, Darius Beck (B.J. Britt), que é negro. O que dizer daquela cena com o Quinn transando com o assessor de Darius (também negro), comemorando a “revolução na televisão” promovida por ela? Na primeira temporada já se denunciava o racismo da mídia televisa e a contribuição de reality shows na construção (e perpetuação) de estereótipos preconceituosos. Nessa temporada, porém, os próprios personagens negras e negros têm voz e participação decisiva na condução da trama. Darius, por exemplo, é a oposição direta do clichê do atleta negro problemático que ganhou dinheiro, mas insiste em se comportar como gangster. O senso de dignidade do personagem, cujo drama interno consiste justamente em ter sido educado para esconder sua negritude para fugir do estigma de “preto marginalizado”, se opõe também à construção de Adam na temporada passada: playboy de linhagem nobre britânica com perfil inescrupuloso que combinava com a baixeza do ambiente de produção de “Everlasting”.
Outra personagem que inspira respeito e visivelmente não se encaixa naquele cenário de reality de relacionamento é Ruby (Denée Benton), que, devido ao poder de manipulação de Rachel, acredita que poderá usar o reality como plataforma para ativismo negro. Além de prato cheio para as edições de “Everlasting”, que diluirão qualquer propósito político que ela venha a manifestar e a reduzirão a uma “angry black woman” para promover eventuais discussões com brancas sulistas conservadoras, Ruby serve para expor a fraqueza de Darius em encarnar uma imagem excessivamente polida e inofensiva para ser aceito.
 Mais duas abordagens que prometem algo interessante para a  segunda temporada são as tramas dos personagens secundários Madison (Genevieve Buechner) e Jay (Jeffrey Bowyer-Chapman). O apelo que a imagem inocente de Madison, confrontada com a hostilidade dos bastidores de “Everlasting”, incita desde a primeira temporada, não deixava duvidas de que ela teria grande potencial de desenvolvimento ao longo da série. A ótima cena de instrução de Rachel (no primeiro episódio da nova temporada), na arte de fazer jogos mentais para conseguir “conteúdo” para o reality, é um duplo de rito de passagem: de Rachel se desvinculando da imagem descabelada e instável emocionalmente para se tornar a nova Quinn e de Madison estreando como produtora e candidata a sucessora de Rachel.
  Também nos bastidores, Jay, já especialista em lançar olhares acusadores nos momentos em que a produção passa dos limites e joga muito sujo (ainda que ele participe), parece especialmente hesitante em lançar certos participantes para os leões em nome da audiência. O fato de ele ser negro (e gay) é decisivo para que ele não seja caracterizado em “Unreal” como um carrasco, e se identifique com Ruby, por exemplo, ao invés de tratá-la apenas como um produto, como o resto da equipe.


sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Unreal (Primeira temporada, 2015)


  Na primeira cena de “Unreal”, a concepção romântica do que seria o encontro dos sonhos para uma mulher é ridicularizada pela produtora        Quinn( Constance Zimmer), que reafirma seu “pragmatismo” ao ensinar à sua equipe que é comercialmente inviável apresentar na TV uma mulher negra como uma boa esposa: “eu não tenho culpa da América ser racista”. Em sequência, a câmera adentra uma limusine pelo teto, para captar o texto na camiseta de Rachel( Shiri Appleby), braço direito de Quinn na produção, que diz “This is what a feminist looks like (É assim que uma feminista se parece)”, enquanto ela apazigua os ânimos das concorrentes do reality show  “Everlasting”, em que um bom partido deve decidir quem será sua futura esposa.
  A série da Lifetime, criada por Marti Noxon e Sarah Gertrude Shapiro, já nos primeiros minutos da temporada exibida em 2015 entrega elementos que permitiriam sua adequação a uma abordagem feminista, associando o mote da protagonista feminina poderosa a uma interpretação crítica das produções de reality shows; filão frequentemente taxado de lixo televisivo e já exaustivamente explorado, mas que ainda é um investimento rentável para emissoras do mundo inteiro. O contraste entre a personalidade forte das protagonistas Quinn e Rachel, que sacrificam a vida pessoal e ultrapassam limites éticos –que  ambiente seria mais propício para cruzá-los que as produções de reality shows? – em nome da ambição profissional, e o retrato superficial das mulheres em programas de relacionamento, em que o objetivo maior é encontrar um homem que preencha o vazio da sua vida, endossaria tal postura ao estabelecer uma oposição entre esses dois perfis femininos: enquanto as primeiras são as mulheres reais por trás das câmeras, as participantes são personagens fictícias manipuladas segundo os interesses de uma mídia conservadora e machista.
   Porém, a produtora que desdenha de fantasias românticas inspiradas nos contos de fadas, se esforça em reproduzi-los em rede nacional, moldando o comportamento das personagens femininas de “Everlasting” com a mesma frieza que decide sobre a iluminação e a decoração dos cenários do programa. E a estampa na camiseta de Rachel parece indicar antes uma ironia do que atestado de engajamento em militância feminista; já que a mesma parece avessa a quaisquer orientações políticas e ideológicas.
   A condução da série parece não deixar brecha para a solidariedade feminina, tanto na dinâmica entre Rachel e Quinn, quanto na posição de superioridade que elas admitem para si ao tratarem o elenco feminino do reality como marionetes. Os recursos utilizados pelas duas envolvem jogos mentais com as participantes, em que os traumas pessoais de cada uma (abuso infantil, agressão, sexualidade reprimida) são gatilhos para extrair momentos de alta intensidade dramática e alavancar a audiência; jogo que parece trazer satisfação pessoal além da exigência do trabalho.
  Não tenho propriedade para dizer se soa ofensivo para uma mulher assistir uma série criada e protagonizada por mulheres, que cria situações narrativas que evidenciam a rivalidade feminina. Mas dentro da minha visão limitada (de homem), me parece que, neste caso, o não enquadramento do roteiro por idealismos contribui para a complexidade da trama e humaniza as personagens, o que resulta em fuga de estereótipos que servem a perpetuação do machismo, a exemplo daqueles reproduzidos pelo reality fictício em torno do qual se desenvolve “Unreal”.
  Uma possível interpretação da importância da hostilidade entre Rachel e Quinn para o desenvolvimento da trama, seria a baixa capacidade dos personagens masculinos de “Unreal” em incorporarem a figura do “macho opressor”. Os homens héteros da primeira temporada da série são muito ridículos para apresentarem alguma ameaça real às duas. A começar pelo playboy britânico Adam Cromwel (Freddie Stroma), pretendente rico, loiro e musculoso vendido como príncipe encantado em “Everlasting”, mas ridicularizado pela imprensa e pela família. Interessado em limpar a imagem após um escândalo sexual midiático e recuperar sua dignidade bancando o bom moço diante das câmeras, oscila entre a conformação com o papel de gigolô e uma fantasia de emancipação para a qual não tem maturidade suficiente. Chet (Craig Bierko), o contato direto da produção do programa com os chefes executivos, que pouco faz de trabalho efetivo além de abusar do poder diante da equipe e tomar decisões arbitrárias, gera uma discussão interessante sobre privilégio masculino no ambiente profissional. Chet tenta utilizar de sua posição superior no trabalho para emular um tom de dominação diante de sua amante Quinn, mas os problemas de saúde e a dependência química são representações simbólicas da fraqueza dele diante dela. Já Jeremy( Josh Kelly), também da equipe de produção do reality, aceita tão facilmente ser um fantoche de Rachel, sua ex-namorada, que é até difícil acreditar que ela, e não ele,  tenha surtado na relação passada dos dois.
  É claro que por trás da dureza de Quinn e Rachel há espaço para um jogo dramático que contrapõe a figura profissional firme e impassível à instabilidade emocional, e mesmo tripudiando das expectadoras da farsa romantizada em que consistem os reality shows de relacionamento, as duas já se sentiram pressionadas a optar por uma vida estável como esposa e mãe. No caso de Rachel, o próprio colapso nervoso ao longo de uma temporada anterior de “Everlasting” (não recapitulada em detalhes dentro da série), indica que o conflito entre a agitação do trabalho e as aspirações de uma vida tranquila a dois com Jeremy foi tão intenso que ameaçou sua sanidade. Já Quinn, apesar de não carregar o mesmo histórico de desequilíbrio psicológico de sua parceira de produção, cai na armadilha da amante que sonha “que ele um dia vai largar a esposa para ficar comigo” e chega a comprar revistas de noivas para planejar o casamento.
  Mas nos momentos em que a balança de uma ou outra tende a pesar para a priorização das relações amorosas, é justamente a relação entre as duas que vem para desmascarar os príncipes fajutos e colocar novamente os homens em segundo plano em “Unreal”. A compatibilidade e a dependência entre Rachel e Quinn no trabalho, finge trazer harmonia momentânea para esta relação e reaviva o antagonismo. Elas se amam e se odeiam.